Não há necessidade de os veganos deixarem as gorduras, o glúten, a soja e os alimentos cozinhados


Publicado: 2018-02-01


Virginia Messina (dietista, co-autora dos livros Vegan for Life, Vegan for Her, Never Too Late to Go Vegan, entre outros)

Quando eu peço uma refeição vegana num avião, esta vem invariavelmente com um molho para salada magro. Isto aborrece-me tremendamente. Não só porque, na minha humilde opinião, o molho para salada magro é basicamente intragável, mas porque de certo modo, as dietas veganas tornaram-se sinónimo de alimentação com baixo teor de gordura. Isto não é bom para os veganos ou para os animais que nós queremos ajudar. Tendo em conta o facto de a alimentação vegana estar consideravelmente fora da corrente dominante e que é muito diferente da maneira de comer da maior parte dos americanos, não é surpreendente que muitas pessoas a vejam como difícil e restritiva. (A maior parte das pessoas vê qualquer mudança alimentar como difícil e restritiva.) Fazer com que as dietas veganas sejam o mais acessíveis possível é uma parte importante do activismo. Já escrevi sobre este tópico anteriormente, mas queria desenvolver o debate sobre as restrições desnecessárias nas dietas veganas. Por desnecessárias, eu quero dizer que nenhuma dessas restrições tem qualquer vantagem particular para a saúde e é provável que tenham algumas desvantagens.
 
Uma dieta sem glúten é uma necessidade absoluta para aqueles que têm doença celíaca, uma intolerância permanente ao glúten. Costuma ser uma dieta muito difícil de seguir, mas o aumento do número de excelentes alimentos sem glúten está a mudar isso, o que é definitivamente uma coisa boa. No entanto, esta doença auto-imune apenas afecta um por cento da população, portanto a maior parte dos veganos não tem razão para eliminar o glúten das suas dietas. De facto, um estudo recente no British Jounal of Nutrition sugeriu que as dietas sem glúten estão associadas a reduções nos níveis de bactérias intestinais benéficas e níveis aumentados de bactérias nocivas, o que pode afectar a resistência às doenças. Para aqueles que não têm doença celíaca, pode ser benéfico incluir algum glúten na dieta.  
 
O uso de dietas com teor muito baixo em gorduras também é contestável. Aqueles que seguem dietas com baixo teor em gorduras saturadas, mas que incluem quantidades moderadas de gordura monosaturada têm perfis de colesterol melhores do que pessoas que limitam rigorosamente todas as gorduras na sua dieta. Algumas pesquisas também sugerem que incluir alguns alimentos gordos nas refeições é melhor para manter a perda de peso a longo prazo. E uma vez que a gordura faz a comida saber melhor, usá-la nas refeições veganas fá-las mais atractivas para os não veganos.

Do mesmo modo, cozinhar alimentos em lume brando tem vantagens. Alguns dos compostos benéficos dos alimentos, como o licopeno (um antioxidante dos tomates que protege contra o cancro da próstata), só estão disponíveis quando os alimentos são cozinhados. O beta-caroteno, percursor da vitamina A, está mais facilmente disponível nos alimentos cozinhados e também é mais bem absorvido na presença de alguma gordura. Tende a ser mais difícil satisfazer as necessidades calóricas a partir de uma alimentação totalmente crudívora, o que faz dela uma escolha pobre para crianças, mas uma boa escolha para aqueles que querem perder peso. Para além disso, não há muita evidência a favor de qualquer vantagem para a saúde de consumir todos os alimentos crus.

A questão dos alimentos de soja – um dos alimentos básicos em alguns países asiáticos há pelo menos 1.000 anos – é complexa e eu escrevi sobre ela noutros lugares (como aqui, aqui e aqui). É lamentável que tantos defensores dos animais se tenham virado contra a soja quando esta é um alimento que faz com que seja mais fácil ser-se vegano. Correndo o risco de parecer que me estou a gabar, o meu marido é um dos principais especialistas do Mundo em soja e saúde, portanto eu tenho acesso a uma prespectiva bem informada sobre este tópico. Eu como duas doses de alimentos de soja todos os dias – às vezes um pouco mais – principalmente na forma de tofu ou análogos da carne. E com base na literatura científica, sinto-me confortável em fazê-lo.

Uma dieta vegana é uma óptima escolha para comer de forma saudável e uma escolha essencial para um estilo de vida ético. Precisamos de fazer com que este modo de comer seja tão acessível quanto for possível. Escolher tornar a dieta vegana restritiva de maneiras que não têm vantagens para a saúde, nem vantagens para os animais não faz sentido.   
 
Tradução: Nuno Metello
Artigo traduzido com a permissão da autora.
Original: http://www.theveganrd.com/2009/11/no-need-for-vegans-to-give-up-fat-gluten-soy-or-cooked-foods.html
Imagem cedida por Marla Rose, do artigo You aren’t vegan because I said so, damn it! More adventures in self-absorption and losing our priorities…  (Vale a pena ler.)