Escolher informação para o activismo


Publicado: 2017-09-13


Por Matt Ball (activista, co-fundador da organização Vegan Outreach, co-autor do livro The Animal Activist’s Handbook: Maximizing Our Positive Impact in Today’s World, e autor do livro The Accidental Activist)

Na sociedade de hoje em dia, parece que se não és quem grita mais alto, não és ouvido. Uma vez que as vozes moderadas são frequentemente abafadas, pode parecer que é necessário fazeres afirmações fantásticas com o fim de promoveres a tua causa.

Há uma tendência natural para a aceitação pouco criteriosa das afirmações nas quais queremos acreditar. Contudo, a longo prazo, eu acredito que isto faz mais mal do que bem, porque perdemos o apoio de pessoas que acabam por perceber que não somos imparciais, e perdemos hipóteses de convencer pessoas que são intrinsecamente cépticas. Além disso, a maior parte das pessoas está à procura de alguma razão para nos rejeitar. Assim, é de vital importância que apresentemos informação que o público não considere absurda e de fontes que ele não rejeite como parciais.


Alguns Problemas Potenciais

Há várias armadilhas no que diz respeito a escolher informação. Estas incluem:

 ·        Começar com uma afirmação desejada e selectivamente construir um argumento para suportar essa afirmação. Isto pode ser especialmente prejudicial quando a afirmação está de tal forma em conflito com a sabedoria convencional ao ponto de ser facilmente rejeitada, e nesse caso qualquer coisa mais que seja dita fica manchada ou ignorada. Um exemplo é afirmar, como se fosse um facto, que Jesus foi vegetariano, quando se está a tentar convencer quaisquer pessoas de que elas também devem ser vegetarianas. Alguns vegetarianos Cristãos são atraídos para este argumento porque ele junta as suas duas convicções mais fortes, ao passo que alguns activistas gostam da afirmação porque recebe atenção mediática.

Contudo, num panorama mais alargado, esta afirmação, assim como outras, pode servir para prejudicar a expansão global da mensagem vegetariana. Uma vez que a Bíblia retrata Jesus como sendo um comedor de peixe, qualquer Cristão suficientemente devoto para basear os seus hábitos alimentares naquilo que Jesus fez, vai provavelmente acreditar na Bíblia. Outros vão concluir que os defensores do vegetarianismo vão dizer qualquer coisa para promover a sua causa, ou mentindo ao público ou iludindo-se a si mesmos.

Carl Sagan escreveu: “Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias [i.e. esmagadoras e incontestáveis].” Quando fazemos afirmações extraordinárias sem este tipo de provas a acompanhá-las, perdemos credibilidade. Afirmações nesta categoria incluem: 75% do solo arável dos E.U. já se perdeu, sendo 80% desta perda directamente atribuível à criação de gado; um acre de árvores desaparece nos Estados Unidos a cada oito segundos; e um hambúrguer custa 55 pés-quadrados de floresta tropical.

(Enquanto eu estava a fazer o meu Mestrado em Ciências de Ecologia Florestal, trabalhei com pessoas que fizeram investigação exaustiva em primeira mão sobre a desflorestação tropical. Também tratei com outros silvícolas, assim como com pessoas que estavam a trabalhar com o Serviço de Conservação do Solo. Por muito que tenha tentado, não consegui encontrar provas para as afirmações frequentemente citadas que referi em cima. Antes, encontrei estatísticas contrárias ou cadeias de causação complexas.)

Afirmações semelhantes incluem: o vegetarianismo faria as reservas mundiais de petróleo durarem 20 vezes mais; mais de metade da água e 33% das matérias-primas usadas nos Estados Unidos vão para a criação de gado; o vegetarianismo pode solucionar a fome mundial; comer carne causa impotência. Se vamos fazer afirmações tão extraordinárias, elas devem estar sustentadas com provas esmagadoras se esperamos que as pessoas acreditem nelas.

·       Outra armadilha envolve um único número de uma extensão incerta. Um exemplo é a afirmação de que 25% dos universitários masculinos são estéreis. Há muitos anos atrás, eu dei um panfleto pró-vegetarianismo ao meu orientador universitário (um individuo com uma mente aberta) que o rejeitou imediatamente depois de ter chegado a esta afirmação. Isto é uma reacção razoável porque a investigação neste tópico mostra informação de uma variedade de fontes que indicam que 25% é uma percentagem alta demais.

·        Um problema similar é a generalização injustificada, como por exemplo pegar nos resultados de um único estudo (e.g., taxas de ataques cardíacos de vegetarianos comparados com não vegetarianos) e generalizar essas taxas como factos para toda a população. Isto é feito frequentemente quando há outros estudos que indicam valores mais moderados, ou mesmo conclusões contrárias. No American Jounal of Clinical Nutrition (1999:70S), Walter Willett dá-nos um exemplo das dificuldades com que somos confrontados ao procurarmos boa informação: “Embora uma associação entre o consumo de carne vermelha e o cancro do colon tenha sido observada em muitos estudos, a evidência disponível sugere que tal relação é insignificante com o cancro da mama. Dentro das populações Adventistas do Sétimo Dia, se alguma redução na incidência do cancro da mama foi observada, foi insignificante em comparação com a população geral. Foram apontadas relações positivas entre o consumo de carne vermelha e o cancro da mama em alguns poucos estudos, mas uma tendência para relatar associações positivas mas não publicar conclusões negativas pode ter resultado numa parcialidade geral na literatura [sobre investigação de medicina e de biologia].”

·      Algumas pessoas também extrapolam dados epidemiológicos de um outro país para o nosso. Muitos activistas usam os resultados de pesquisas feitas noutras culturas como se estes necessariamente se aplicassem a veganos nos Estados Unidos. Mas há uma ampla variedade de factores confundidores que fazem com que muitas extrapolações sejam difíceis, como por exemplo a quantidade de exercício com pesos feito pelas mulheres e a sua relação com a osteoporose, e o facto de muito pouco dessa pesquisa ser feita em verdadeiros veganos.

·        Um outro problema é ligar factos sem relação ou vagamente relacionados, tal como argumentar que uma pessoa deve ser vegana para evitar a esterilidade. A maior parte das pessoas que ouvem isto podiam, se assim o desejassem, encontrar facilmente informação que mostra que ser vegetariano tem pouco a ver com esterilidade – e.g., a Associação Endócrina não lista nada relacionado com a dieta como uma causa de infertilidade masculina.


Avaliar e Apresentar Informação

O público em geral está constantemente a ser bombardeado com “factos documentados” por todos os lados (e.g., os gurus da dieta Da Zona/Baixa em hidratos de carbono/Do tipo sanguíneo). Estes e outros estão total e apaixonadamente convencidos da verdade dos seus factos. Não podemos presumir que o público vai ficar influenciado pelas nossas afirmações só porque nós também estamos convencidos de que os nossos factos são correctos. Temos de ir para além de encontrar afirmações e pesquisas que sejam apelativas para nós, e usar material que o público-alvo vá considerar envolventes e convincentes. Precisamos, especificamente, de ser adequadamente cépticos em relação às afirmações que suportam a nossa posição, e não ser depreciativos em relação às afirmações contrárias. O argumento a favor do vegetarianismo é válido – e não facilmente rejeitado – mesmo com asserções menos fantásticas.


Informação Nutricional

Com o fim de não afugentar potenciais veganos, alguns defensores do veganismo raramente mencionam quaisquer dificuldades em se ser vegano. Isto pode fazer com que nos saía o tiro pela culatra ao não se preparar bem as pessoas para uma dieta vegana. A nossa experiência mostra que um grande número de pessoas que se tornaram vegetarianas ou veganas, não se sentiram saudáveis, e voltaram a comer carne. Como um professor de nutrição disse ao Jack recentemente, “Tu és o único vegano que eu conheço. Conheço muitos ex-veganos, mas nenhuns veganos.”

Por exemplo, muitas das brochuras de advocacia vegana sugerem que ser vegano reduz o risco de osteoporose e que, portanto, os veganos não precisam de estar preocupados se obtêm menos cálcio e vitamina D do que os não veganos (a maioria dos veganos obtêm significativamente menos cálcio). Todavia, estudos recentes não mostram que os veganos estejam mais protegidos da osteoporose do que os não veganos. Portanto, os veganos devem ir ao encontro das quantidades Diárias Recomendadas de cálcio, e devem prestar atenção ao seu consumo de vitamina D e/ou exposição solar.

Os investigadores ao comentarem o seu estudo no Jornal Britânico de Nutrição deram o seguinte conselho:

As conclusões do presente e de outros estudos sugerem uma necessidade de suplementação alimentar em dois estádios no percurso de um vegetariano adulto. O “novo” vegetariano, que tenha deixado recentemente alguns ou todos os produtos animais, pode entrar num balanço negativo de minerais. Se os mecanismos de absorção de minerais precisarem de tempo para se ajustarem ao consumo reduzido de minerais (especialmente [a forma vegetal do ferro]), e o aumento [de fibra], então um suplemento modesto pode suavizar esta transição. O ferro, o zinco e o cálcio seriam afectados. O vegetariano que progride para o veganismo certamente precisa de vitamina B12 adicional, e o iodo e a riboflavina também são para ser aconselhados. Os suplementos de nutrientes aconselhados para os adultos são também necessários para as crianças que estejam a ter dietas similares, e em adição, um consumo alimentar de vitamina D também é considerado essencial para crianças. (Draper A, Lewis J, Malhotra N, Wheeler E, "The energy and nutrient intakes of different types of vegetarian: a case for supplements?" British Journal of Nutrition 1993 Jan;69(1):3–19.)

[Mais informação disponível na secção sobre vitamina D dos artigos sobre Nutrição Vegana. Versão original com mais material adicional: http://www.veganhealth.org


Descobrir e partilhar informação correcta

Obter informação correcta, completa e sem preconceitos pode ser difícil. Até 1999, alguma da informação nos panfletos da Vegan Outreach tinha sido baseada em fontes secundárias. Quando nós finalmente tivemos tempo para irmos às fontes originais, estas frequentemente não correspondiam àquilo que lhes estava a ser atribuído. Mesmo as fontes primárias têm problemas, e não podem ser vistas separadamente.

Ser rigoroso e cuidadoso pode parecer uma tarefa esmagadora. Mas para além de serem mais eficazes em chegar ao nosso público-alvo, estes esforços vão aumentar a nossa confiança na informação que estamos a usar, e podem até levar a outros factos e conhecimentos importantes.

Tradução: Nuno Metello
Artigo traduzido com a permissão do autor.
Original: http://www.veganoutreach.org/advocacy/goodinfo.html