Como é ser um omnívoro? (sobre os aplausos à tendência auto-confirmatória)


Publicado: 2018-04-09


Por Tobias Leenaert, autor do blog The Vegan Strategist e do livro How to Create a Vegan World: A Pragmatic Approach.


Nós acreditamos que sendo veganos, estamos a fazer uma coisa boa. Gostaríamos que os outros fizessem a mesma coisa boa. Mas não podemos forçar os outros a imitarem-nos. Nesta altura, não há forma de tornar ilegal o consumo de artigos de origem animal, e mesmo que o presidente ou ditador de algum país abolisse o consumo de animais, o tempo ainda não é próprio para isso e em breve essa lei seria revertida.

Portanto uma das coisas que precisamos de fazer (para além de criar alternativas!) é mudar as mentes e os corações. Para fazer isso, precisamos de entender os outros, conhecer o território de onde vêm, ouvi-los, e saber o que os atrai e o que os afasta. Por outras palavras, temos de ser capazes de entender a sua perspectiva. Já chamei a esta ideia YANYA ou You Are Not Your Audience (“Tu Não És A Tua Audiência”).

Quando uma pequena percentagem da população vai contra a maré dos outros 98%, de alguma forma essa minoria tem de ter mais motivação. Somos, em certa medida, diferentes das outras pessoas.

Um dos problemas é que aquilo que os veganos gostam de ouvir não é aquilo que a população em geral gosta ou precisa de ouvir. Os veganos que dizem às suas audiências a verdade “tal como ela é” (num vídeo, entrevista, ou algo assim), são muitas vezes aplaudidos pelos outros veganos. Isto é o que eu chamo Aplauso à Tendência Confirmatória (quando sofremos de tendência confirmatória, favorecemos informação que confirme as nossas crenças e opiniões). Aplaudimos porque a nossa opinião é confirmada, precisamente sem tomar em consideração as reacções das pessoas que na realidade, idealmente, deveríamos atingir.



Como funciona a tendência confirmatória.


Deixem-me dar alguns exemplos reais. Recentemente foi muito partilhado um vídeo, sobre um activista que disse aquilo que muitos de nós gostaríamos de dizer – pelo menos às vezes – aos omnívoros: sim, estamos a julgar-te, porque as tuas escolhas causam tanto sofrimento, e poderias facilmente escolher outra coisa. Linha após linha, a resposta inicial dos veganos é “Exactamente!”, “É assim mesmo!”, e fazemos “gostos”, comentamos, partilhamos…

O mesmo se passa com os memes que ridicularizam os não-veganos e as suas reacções muitas vezes estranhas e irracionais. Podemos achar piada e reconhecer-nos. É por isso que os partilhamos e gozamos com as reacções dos não-veganos juntamente com os nossos colegas veganos. E divertir-nos é… divertido. E necessário. Mas é bom considerar os efeitos deste tipo de memes nos não-veganos.

Uma vez fiz um debate na TV no horário nobre, com o presidente de uma associação de agricultores na Bélgica. O que disse foi, acho eu, equilibrado, gentil, e razoável. Mas o que ouvi por parte de muitos veganos foi: “porque não disseste tal como é? Porque não lhe disseste que produzir animais para serem comidos é criminoso e que comer carne é um crime?” Posso imaginar que receberia muitos aplausos dos veganos, mas que teria alienado o meu público em geral – as pessoas a que queria realmente chegar.

De igual forma, recentemente dei duas entrevistas a meios de comunicação social generalistas na Bélgica e nos Países-Baixos, baseadas na recente publicação do meu livro. Sei que a esmagadora maioria dos leitores dessas entrevistas seriam não-veganos. Mencionei como o fundamentalismo existe realmente no movimento vegano, mas que se expressa não em termos de comportamento (ser vegano não é fundamentalismo por si só), mas possivelmente na nossa comunicação e na forma como nos relacionamos com as outras pessoas. Disse que podemos comunicar com compaixão, ou como um idiota. O editor-em-chefe de um jornal fez uma parangona para colectar “cliques” sobre isso: “Aos veganos radicais eu digo: não sejas um idiota”.

Neste caso também, os veganos podem não gostar de afirmações como estas que contribuem para a imagem de um movimento com divisões internas. Mas há uma forma de pensar de forma diferente sobre isso, a perspectiva do público: qualquer não-vegano que alguma vez tenha de lidar com um vegano agressivo e chato (sabem que eles existem) pode muito bem achar um alívio que nem todos os veganos concordem com essa abordagem.

Para alguns veganos, pareço demasiado tolerante, demasiado pragmático, demasiado clemente. No entanto, hoje, numa reacção à mesma entrevista, em que peço uma abordagem mais tolerante, recebi uma carta de uma não-vegana, da qual posso concluir que, apesar do meu apelo à tolerância e a ter uma mente aberta, eu ainda assim sou visto como intolerante e dogmático. E não, a carta dela não era de modo nenhum irrazoável ou pouco simpática.

Outro exemplo: para tornar a imagem do veganismo menos rígida e dogmática, por vezes descrevo as excepções que faço. Mencionar que não examino exaustivamente os ingredientes do vinho e do pão quando estou fora de casa, faz de mim um alvo de alguns veganos que acham que eu nem me deveria chamar vegano. No entanto, para os não-veganos (que são, mais uma vez, a quem queremos chegar) estas excepções nem sequer contam como excepções, e podem apenas confirmar como na realidade somos rígidos.

Exprimir as tuas opiniões pensando na reacção do público não tem nada a ver com agradar às suas opiniões e desejos. Alguns veganos dirão: sim, claro que os não-veganos gostam de uma abordagem suave e incremental, porque lhes damos uma saída, uma desculpa. Claro que eles gostam quando não lhes dizemos que têm a obrigação moral de se tornarem veganos (não gosto muito de “bitolas morais”). Mas não se trata de dizer às pessoas aquilo que querem ouvir porque isso lhes é confortável. Trata-se de dizer às pessoas aquilo que seja útil para elas ouvirem de modo a possibilitar a mudança (na sua atitude e/ou comportamento). Se essa mudança ainda não é o compromisso total, então que assim seja.

Portanto uma mensagem importante é: se leres algo escrito por um vegano num meio de comunicação generalista e não gostares, pensa primeiro sobre como o público alargado reagiria. Ficariam tão zangados como tu? Ou seria na realidade algo que os aproximaria, mesmo que não fosse o mais correcto segundo o teu ideal? As reacções que interessam não são dos veganos, mas das pessoas não-veganas da audiência. Se os veganos pensassem nisto, aqueles que falam em nome do veganismo não seriam restringidos pelas reacções negativas potenciais por parte dos veganos, e poderiam de forma mais livre apelar ao público mais alargado possível.

Podes discordar de tudo isto, e podes acreditar que expressar a tua verdade, a forma como sentes a questão, sempre e em todos os casos, é o mais importante para ti. Mas se dermos seriamente crédito à frase habitual de que “não se trata de nós, trata-se dos animais”, então acredito que a prioridade não é expressar a nossa verdade, mas o efeito concreto das nossas acções.



Tradução: João Madureira

Traduzido com a permissão do autor.

Original:  What’s it like to be a meat eater? (on “confirmation bias cheering”)